terça-feira, setembro 07, 2010

CONDUTA CRISTÃ - 2. AS "VIRTUDES CARDEAIS"

2. AS "VIRTUDES CARDEAIS"
O capítulo anterior foi originalmente concebido co­mo um breve colóquio para ser levado ao ar pelo rádio.
Quando você não pode falar por mais de dez mi­nutos, quase tudo tem de ser sacrificado em prol da concisão. Uma das principais razões pelas quais dividi a moral em três partes (com a imagem dos navios em comboio) foi que me pareceu ser esse o caminho mais curto para dizer o que tinha de dizer. Agora, gostaria de dar uma idéia de outro esquema no qual o assunto foi dividido por escritores antigos, um esquema que, embo­ra fosse longo demais para aquele colóquio, é excelente. De acordo com esse esquema mais longo, existem sete "virtudes". Quatro delas são chamadas virtudes "car­deais", e as restantes, virtudes "teológicas". As "cardeais" são as que toda pessoa civilizada reconhece; já as "teoló­gicas", em geral, só os cristãos conhecem. Tratarei das teo­lógicas mais adiante. Por enquanto, ocupar-me-ei das quatro virtudes cardeais. (A palavra "cardeal" não tem nenhuma relação com os "cardeais" da Igreja Católica. E derivada da palavra latina que significa "gonzo da porta". São chamadas virtudes "cardeais" porque são, podería­mos dizer, virtudes "fundamentais".) São elas: a PRUDÊN­CIA, a TEMPERANÇA, a JUSTIÇA e a FORTALEZA.
A prudência significa a sabedoria prática, parar para pensar nos nossos atos e em suas conseqüências. Nos dias de hoje, a maioria das pessoas já não considera a Prudência uma "virtude". Inclusive, como Cristo disse que só entrariam em seu Reino os que fossem como crianças, muitos cristãos pensam que podem ser tolos, desde que sejam "bonzinhos". E um erro. Em primeiro lugar, muitas crianças demonstram ter bastante "pru­dência" quando fazem coisas que são do seu interesse, e conseguem pensar a respeito dessas coisas com bas­tante sensatez. Em segundo lugar, como esclarece São Paulo, Cristo nunca quis que fôssemos como crianças na inteligência - muito pelo contrário. Ele nos exortou a ser não apenas "simples como as pombas", mas tam­bém "prudentes como as serpentes". Quer de nós um coração de criança, mas uma cabeça de adulto. Quer-nos simples, centrados, afetuosos e dóceis no aprendizado, como as boas crianças são; mas também quer que cada fração da inteligência que possuímos esteja alerta e afia­da para a batalha. O fato de você dar dinheiro para uma obra de caridade não quer dizer que não deva tentar sa­ber se a instituição de caridade é fraudulenta ou não. O fato de você pensar em Deus (por exemplo, quando reza) não significa que deva contentar-se com as cren­ças infantis que alimentava aos cinco anos de idade. É verdade que Deus não deixará de amar ninguém, nem deixará de utilizar uma pessoa como seu instrumento por ter nascido com um cérebro de segunda classe. Ele tem um coração grande o suficiente para abrigar pes­soas de pouco senso, mas quer que cada um de nós use o senso que lhe coube. Não devemos ter como lema "Seja boa, doce menina, e deixe a inteligência para quem a possui", mas sim "Seja boa, doce menina, e não se es­queça de ser o mais inteligente que puder". Deus não detesta menos os intelectualmente preguiçosos do que qualquer outro tipo de preguiçoso. Se você está pen­sando em se tornar cristão, eu lhe aviso que estará em­barcando em algo que vai ocupar toda a sua pessoa, inclu­sive o cérebro. Felizmente, existe uma compensação. Aquele que se esforça honestamente para ser cristão logo percebe que sua inteligência está aprimorada. Um dos motivos pelos quais não é necessário grande estudo para se tornar cristão é que o cristianismo é em si mesmo uma educação. Foi por isso que um crente ignorante, como Bunyan, foi capaz de escrever um livro que es­pantou o mundo inteiro.
Temperança, infelizmente, é uma palavra que per­deu seu significado original. Hoje em dia ela significa a abstinência total de bebidas alcoólicas. Na época em que a segunda virtude cardeal recebeu esse nome, ela não significava nada disso. A temperança não se referia ape­nas à bebida, mas aos prazeres em geral; e não implicava a abstinência, mas a moderação e o não-passar dos li­mites. (...) Uma das marcas de um cer­to tipo de mau caráter é que ele não consegue se privar de algo sem querer que todo o mundo se prive também. Esse não é o caminho cristão. Um indivíduo cris­tão pode achar por bem abster-se de uma série de coi­sas por razões específicas - do casamento, da carne, da cerveja ou do cinema; no momento, porém, em que começa a dizer que essas coisas são ruins em si mesmas, ou em que começa a fazer cara feia para as pessoas que usam essas coisas, ele se desviou do caminho.
A restrição moderna do uso da palavra temperan­ça à questão da bebida fez um grande mal. Ela ajuda as pessoas a esquecer que existem muitas coisas em rela­ção às quais podemos faltar com a temperança. O homem que transforma suas partidas de golfe ou sua motocicle­ta no centro de sua vida, ou a mulher que dedica todos os seus pensamentos a roupas, a partidas de bridge ou ao seu cachorro, estão sendo tão intemperantes quanto o sujeito que bebe muito. E claro que, visto de fora, o pro­blema não é tão evidente: a mania de golfe ou de bridge não deixa a pessoa caída na sarjeta. Deus, porém, não se deixa enganar pelas aparências.
A justiça pressupõe muito mais do que os afazeres de um tribunal. E apenas o antigo nome do que hoje chamamos de "imparcialidade", que inclui a honesti­dade, a reciprocidade, a veracidade, o cumprimento da palavra e todas as coisas desse tipo. A fortaleza, por fim, abarca os dois tipos de coragem - a que nos leva a enfrentar o perigo e a que nos leva a suportar a dor.
Guts (literalmente “intestino”) talvez seja o sinônimo mais aproximado no inglês moderno. Você pode notar que não se consegue colo­car em prática nenhuma das outras virtudes por muito tempo sem ter de recorrer a essa.
Há ainda outra questão sobre as virtudes que mere­ce ser destacada. Há uma diferença entre executar um ato de justiça ou temperança, por um lado, e ser uma pessoa justa ou temperada, por outro. Alguém que não jogue tê­nis muito bem pode, vez ou outra, executar uma grande jogada. O jogador bom é aquele cujos olhos, músculos e nervos estão tão bem treinados pela execução de boas jo­gadas que já se tornaram de confiança. Existe nele um certo tom ou qualidade que transparece mesmo quando não está jogando, da mesma forma que a mente de um matemático possui certos hábitos e atitudes que não po­dem deixar de ser notados mesmo quando ele não está empenhado em fazer matemática. Igualmente, um ho­mem que persevere na prática de atos justos terminará por obter uma certa qualidade de caráter. O que chama­mos de "virtude" é essa qualidade, e não as ações isoladas.
Essa distinção é importante porque, se pensarmos somente em ações isoladas, estaremos encorajando três idéias erradas.
1) Podemos pensar que, já que fizemos uma coisa certa, não importa como ou por que motivo a fizemos - se espontaneamente ou não, de mau humor ou com alegria, por medo da opinião pública ou por amor ao bem. A verdade é que as ações corretas praticadas pelas razões erradas não nos ajudam a construir a qualidade inter­na ou caráter chamada "virtude", e é essa qualidade ou caráter que realmente interessa. (Se um jogador medío­cre de tênis dá um saque muito forte porque perdeu a cabeça e não porque avaliou que a força era necessária, esse saque pode até, com sorte, levá-lo a vencer o jogo, mas não vai transformá-lo num bom jogador.)
2) Podemos ser levados a crer que Deus quer sim­plesmente a obediência a uma lista de regras, ao passo que o que ele realmente quer são pessoas dotadas de um determinado caráter.
3) Podemos pensar que as "virtudes" são necessárias apenas para a nossa vida presente — e que no outro mun­do podemos parar de ser justos pois não há nada sobre o que brigar, ou parar de ser corajosos porque não exis­te mais o perigo. E verdade que provavelmente não ha­verá ocasião para praticar a justiça ou a coragem na ou­tra vida, mas haverá uma abundância de ocasiões para sermos o tipo de pessoa que nos tornamos ao praticar esses atos aqui. A questão não é que Deus vá negar nossa entrada na vida eterna se não tivermos certas qualidades de caráter, mas que, se as pessoas não tiverem pelo me­nos os rudimentos dessas qualidades dentro de si, ne­nhuma condição exterior poderá ser um "Paraíso" para elas - em outras palavras, nenhuma condição exterior poderá dar-lhes a forte, profunda e inabalável alegria que Deus tencionou para nós.

C.S.Lewis

sábado, setembro 04, 2010

CONDUTA CRISTÃ - 1. AS TRÊS PARTES DA MORAL

Graça e paz a todos!
Passaremos a postar uma série de reflexões de C.S.Lewis sobre a Conduta Cristã, extraidas do Livro "Cristianismo puro e simples".
Serão doze artigos que certamente edificarão a todos que os lerem, por essa razão, não apenas leia, mas procure extrair deles toda a sua essencia moral, pois eles nos ajudarão não apenas a sermos melhores cristãos, mas serão fortes aliados em nosso relacionamento com todos que nos cercam.
Boa leitura.
Antonio Carlos, aprendiz de servo.
CONDUTA CRISTÃ

1. AS TRÊS PARTES DA MORAL
Conta-se a história de um garoto a quem pergunta­ram como achava que Deus era. O garoto respondeu que, pelo que era capaz de compreender, Deus era "o tipo de pessoa que está sempre xeretando a vida dos outros para ver se alguém está se dNegritoivertindo e tentar acabar com isso". Infelizmente, parece-me que é essa a idéia que um número considerável de pessoas faz da palavra "Moral": algo que se intromete em nossa vida e nos impede de ter momentos agradáveis. Na realidade, as regras morais são como que instruções de uso da máquina chamada Homem. Toda regra moral existe para prevenir o colap­so, a sobrecarga ou uma falha de funcionamento da má­quina. E por isso que essas regras, no começo, parecem estar em constante conflito com nossas inclinações na­turais. Quando estamos aprendendo a usar qualquer me­canismo, o instrutor vive dizendo "Não, não faça isso", porque existem diversas coisas que, embora pareçam muito naturais e até acertadas na forma de lidar com a máquina, na verdade não funcionam.
Certas pessoas preferem falar de "ideais" morais em vez de regras morais, e de "idealismo" moral em vez de obediência. Ora, é certo que a perfeição moral é um "ideal", na medida em que é inalcançável. Nesse senti­do, toda perfeição é, para nós, seres humanos, um ideal. Não conseguimos dirigir perfeitamente um automóvel, jogar tênis perfeitamente ou desenhar uma linha per­feitamente reta. Num outro sentido, porém, é enganador dizer que a perfeição moral é um ideal. Quando um ho­mem diz que certa mulher, casa, barco ou jardim é "seu ideal", não pretende (a menos que seja um tolo) que to­dos tenham o mesmo ideal. Nesses assuntos, temos o di­reito de ter gostos diferentes e, conseqüentemente, ideais diferentes. E perigoso, porém, dizer que um homem que se esforça para seguir a lei moral seja um homem de "altos ideais", pois isso pode nos dar a impressão de que a perfeição moral é um mero gosto pessoal dele e que o restante dos homens não teria o dever de procurar rea­lizá-la. Esse erro seria desastroso. A conduta perfeita tal­vez seja tão inalcançável quanto a perfeita perícia ao volante, mas é um ideal necessário prescrito a todos os ho­mens por causa da própria natureza da máquina huma­na, da mesma forma que a pilotagem perfeita é prescrita a todos os motoristas pela própria natureza dos auto­móveis. E seria ainda mais perigoso se você se conside­rasse uma pessoa de "altos ideais" só porque tenta não mentir (em vez de só contar mentirinhas ocasionais), não cometer adultério (em vez de só cometê-lo de vez em quando) e não ser violento com os outros (em vez de ser só um pouquinho violento). Você correria o ris­co de transformar-se num moralista hipócrita, conside­rando-se uma pessoa especial a ser felicitada por seu "idealismo". Na verdade, isso seria o mesmo que se julgar especial por esforçar-se para acertar o resultado de uma soma. É claro que a aritmética perfeita é um "ideal", pois certamente cometeremos erros em algumas con­tas. Porém, não há nada de especialmente louvável em tentar obter o resultado correto de cada passo de uma soma. Seria pura estupidez não fazer essa tentativa, pois cada erro de cálculo vai lhe causar problemas para ob­ter o resultado final. Da mesma forma, toda falha mo­ral causará problemas, provavelmente para os outros, cer­tamente para você. Ao falar de regras e obediência em vez de "ideais" e "idealismo", colaboramos muito para nos lembrar desse fato.
Vamos dar um passo além. Existem duas maneiras pelas quais a máquina humana pode quebrar. Uma delas é quando os indivíduos humanos se afastam uns dos outros ou colidem uns com os outros e prejudicam uns aos outros, traindo ou cometendo violência uns com os outros. A outra é quando as coisas vão mal dentro do próprio indivíduo — quando as diferentes partes que o compõem (suas faculdades, desejos etc.) dissociam-se ou conflitam umas com as outras. Pode-se fazer uma ima­gem clara do que estou falando se imaginarmos os se­res humanos como uma frota de navios que navega em formação. A viagem só será bem-sucedida se, em primei­ro lugar, os navios não se chocarem entre si e não en­trarem uns no caminho dos outros; e, em segundo lugar, se cada navio estiver em boas condições de navegação, com suas máquinas em ordem. Aliás, não dá para ter uma das coisas sem a outra. Se os navios se chocarem, a frota não ficará em boas condições por muito tempo. Por outro lado, se os lemes estiverem com defeito, será difícil evitar as colisões. Se você preferir, pense na hu­manidade como uma orquestra que toca uma música. Para se ter um bom resultado, duas coisas são necessá­rias: cada um dos instrumentos deve estar afinado e cada músico deve tocar no momento certo para que os ins­trumentos combinem entre si.
Há uma coisa, porém, que ainda não levamos em conta. Não nos perguntamos qual o destino da frota, ou qual a música que a banda pretende tocar. Mesmo que os instrumentos estivessem todos afinados e todos to­cassem no tempo correto, a execução não seria um su­cesso se os músicos, tendo sido contratados para tocar música dançante, tocassem somente marchas fúnebres. E, por melhor que fosse a navegação da frota, a viagem não seria um sucesso se, querendo chegar a Nova York, aportasse em Calcutá.
A moral, então, parece englobar três fatores. O pri­meiro é a conduta leal e a harmonia entre os indivíduos. O segundo pode ser chamado de organização ou harmo­nização das coisas dentro de cada indivíduo. O terceiro é o objetivo geral da vida humana como um todo: qual a razão de ser do homem, qual o destino da frota de navios, qual música o maestro quer que a banda toque.
Você já deve ter notado que o homem moderno qua­se sempre pensa no primeiro desses fatores, esquecen­do os outros dois. Quando as pessoas dizem nos jornais que estamos buscando um padrão moral cristão, quase sempre pensam na bondade e na justiça entre nações, classes e indivíduos; ou seja, referem-se apenas ao pri­meiro fator. Quando um homem, falando de um pro­jeto seu, diz que ele "não pode estar errado, pois não fará mal a ninguém", também está se referindo somente ao primeiro fator. No seu modo de pensar, não importa como o navio está por dentro, desde que não colida com a embarcação ao lado. E, quando começamos a pensar sobre a moral, é muito natural partirmos do primeiro fator, que são as relações sociais. Para começar, os resul­tados de uma moralidade deturpada nesta esfera são mui­to evidentes e nos afetam todos os dias: a guerra e a mi­séria, as jornadas desumanas de trabalho, as mentiras e todos os tipos de trabalho malfeito. Além disso, en­quanto ficamos circunscritos a esse primeiro fator, não há muito o que discutir sobre moralidade. Quase todos os povos de todos os tempos chegaram à conclusão (em tese) de que os seres humanos devem ser honestos, gentis e solícitos uns com os outros. Contudo, embora seja natural começar por aí, um pensamento moral que ficasse restrito a isso seria o mesmo que nada. Se não passarmos ao segundo fator - a organização interna de cada ser humano -, estaremos apenas nos enganando. De que vale dar instruções precisas de navegação aos barcos se eles não passam de embarcações velhas e enferrujadas, que não obedecem aos comandos? De que vale pôr no papel regras de conduta social se sabemos que, na verdade, nossa cobiça, covardia, destempero e vaidade vão nos impedir de cumpri-las? Não quero de maneira alguma dizer que não devemos pensar, e nos esforçar, para melhorar nosso sistema social e econômi­co. Quero apenas salientar que todo esse planejamento não passará de conversa fiada se não nos dermos conta de que só a coragem e o altruísmo dos indivíduos poderá fazer com que o sistema funcione de maneira apro­priada. Seria fácil eliminar os tipos particulares de fraude e tirania que subsistem em nosso sistema atual; mas, en­quanto os homens forem os mesmos trapaceiros e man­da-chuvas de sempre, encontrarão novas formas de se­guir jogando o mesmo jogo, mesmo num novo sistema. É impossível tornar o homem bom pela força da lei; e, sem homens bons, não pode haver uma boa sociedade. É por isso que temos de começar a pensar no segundo fator: a moral dentro de cada indivíduo.
Mas não penso que isso seja suficiente. Estamos che­gando a um ponto da questão em que diferentes cren­ças a respeito do universo produzem formas diferentes de conduta. A primeira vista, pode parecer bastante ra­zoável parar antes de entrar nessa questão, e só nos ocupar­mos das partes da moral que são de consenso entre as pessoas sensatas. Mas podemos nos dar a esse luxo? Lem­bre-se de que a religião envolve uma série de juízos sobre os fatos, juízos que podem ser verdadeiros ou falsos. Caso sejam verdadeiros, as conclusões deles tiradas conduzem a frota da raça humana por um determinado trajeto; caso contrário, o destino será completamente diferen­te. Voltemos, por exemplo, à pessoa que diz que uma coisa não pode estar errada se não faz mal a outros se­res humanos. Essa pessoa sabe muito bem que não deve danificar os outros navios do comboio; porém, pensa sinceramente que tudo o que fizer em seu próprio navio é da sua própria conta. Mas, para isso, não importa sa­ber se o navio é de sua propriedade ou não? Não im­porta saber se eu sou, por assim dizer, o senhorio do meu próprio corpo, ou se sou somente o seu inquilino, responsável perante o verdadeiro proprietário? Se fui fei­to por outra pessoa, por alguém que tem os seus pró­prios desígnios, o fato é que tenho uma série de obriga­ções em relação a essa pessoa, obrigações que não exis­tiriam se eu simplesmente pertencesse a mim mesmo. Além disso, o cristianismo assevera que todo indi­víduo humano viverá eternamente, o que pode ser ver­dadeiro ou falso. Há várias coisas com as quais eu não me preocuparia se fosse viver apenas setenta anos, mas que me preocupam seriamente com a perspectiva da vida eterna. Talvez minha irritabilidade ou meu ciúme fi­quem piores com o tempo - de forma tão gradual que a mudança seja imperceptível ao longo de sete décadas. No entanto, eles serão um verdadeiro inferno em um milhão de anos: aliás, se o cristianismo é verídico, "infer­no" é o termo técnico exato para designar como as coisas serão então. A imortalidade também traz à tona outra diferença que, inclusive, está ligada à diferença entre to­talitarismo e democracia. Se um homem não vive mais que setenta anos, um estado, uma nação ou uma civili­zação que pode durar mil anos são mais importantes do que ele. Porém, se o cristianismo é verdadeiro, o indi­víduo não é apenas mais importante, mas incompara­velmente mais importante, pois sua vida não tem fim; comparada à sua vida, a duração de um estado ou civi­lização não passa de um simples instante.
Parece-nos, portanto, que, para pensar a respeito da moral, temos de levar em conta os três departamentos: as relações entre os homens; as coisas que se passam no interior de cada ser humano; e as relações entre o ho­mem e o poder que o criou. Podemos todos cooperar no primeiro. Os desacordos começam com o segundo e se tornam mais sérios no terceiro. É no trato com o último que se evidenciam as principais diferenças entre cris­tãos e não-cristãos. No restante deste livro (postagens), assumirei o ponto de vista cristão e examinarei todo o cenário par­tindo do pressuposto da veracidade do cristianismo.

C.S.LEWIS

sexta-feira, julho 16, 2010

É Fácil Viver com Deus

O primeiro ataque feito por Satanás à raça humana foi o seu astuto esforço para destruir a confiança de Eva na bondade de Deus. Infelizmente para ela e para nós, ele se saiu muito bem. Desde aquele dia, os homens têm tido um falso conceito de Deus. e foi exatamente isto que arrancou de debaixo deles a base da jus­tiça e os levou a uma vida imprudente e destrutiva, Nada deforma e torce mais a alma do que um baixo e indigno conceito de Deus. Certas seitas, como a dos fariseus, conquanto sustentassem que Deus era severo e austero, empenhavam-se em manter um nível razoavel­mente alto de moralidade externa; mas a sua justiça era apenas exterior. Interiormente eram "sepulcros caiados", como o Senhor mesmo lhes disse. Seu errôneo conceito de Deus resultou numa idéia errônea de culto. Para um fariseu, o serviço de Deus era uma escravidão que ele não amava, mas da qual não podia escapar sem que lhe sobreviesse uma perda grande demais para suportar. Não era fácil viver com o Deus do fariseu, de sorte que a sua religião tornou-se carrancuda, pesada e desamável. Só tinha que ser assim, pois sempre a nossa noção de Deus determina necessariamente a qualidade da nossa religião.
Muito cristianismo, desde os dias da carne de Cristo, também tem sido carrancudo e severo. E a causa é a mesma — uma indig­na e inadequada idéia de Deus. Instintivamente tentamos ser iguais ao nosso Deus, e se o concebemos severo e exigente, assim seremos.Do malogro de entender apropriadamente a Deus, provém um mundo de infelicidade entre os cristãos ainda hoje. Considera-se a religião um sombrio e desanimador processo de levar a cruz sob os olhos de um Pai severo que espera muito e não desculpa nada. Ele é austero, impertinente, altamente temperamental e extremamente difícil de agradar. A espécie de vida que brota de noções tão difa­matórias necessariamente tem que ser apenas uma paródia da verdadeira vida com Cristo.
É da maior importância para a nossa vida espiritual ter sem­pre em mente uma correta concepção de Deus. Se pensamos nEle como frio e exigente, acharemos impossível amá-lO, e as nossas vidas serão dominadas por um temor servil. Por outro lado, se sus­tentamos que Ele é bondoso e compreensivo, toda a nossa vida in­terior refletirá essa idéia.
A verdade é que Deus é o mais encantador de todos os seres e servi-lO é um prazer indescritível. Ele é todo amor, e aqueles que confiam nEle nunca precisarão conhecer coisa alguma, senão esse amor. Ele é justo deveras, e não deixa passar por alto o pecado; mas, pelo sangue da aliança eterna Ele pode agir para conosco exa­tamente como se nunca tivéssemos cometido pecado. Para os filhos dos homens que nEle confiam, a Sua misericórdia sempre triunfará sobre a justiça.
A comunhão de Deus é deleitável além de toda a expressão. Ele conversa com os Seus redimidos numa comunhão fácil e desinibida, repousante e conciliadora para a alma. Ele não é sentimentalista, nem egoísta, nem temperamental. O que Ele é hoje, veremos que continua sendo amanhã, depois de amanhã e no ano que vem. Não é difícil agradá-lO, embora talvez seja difícil satisfazê-lO. Ele só espera de nós aquilo de que primeiro nos supriu. Ele é rápido para anotar cada simples esforço para agradá-lO, e tão rápido, exa­tamente para deixar de lado as nossas imperfeições quando sabe que a nossa intenção é fazer a Sua vontade. Ele nos ama pelo que somos e considera o nosso amor mais valioso do que as galáxias de novos mundos criados.Infelizmente, muitos cristãos não podem ficar livres das suas pervertidas noções de Deus, e estas noções envenenam os seus co­rações e destroem a sua liberdade interior. Estes amigos servem a Deus de cara fechada, como fazia o irmão mais velho, fazendo o que é certo sem entusiasmo e sem alegria, e parecem totalmente incapazes de entender a alegre e animada celebração feita quando o pródigo chega em casa. A idéia que eles têm de Deus exclui a possibilidade de Ele ser feliz em Seu povo, e atribuem os cânticos e as aclamações a consumado fanatismo. Almas infelizes, estas, con­denadas a prosseguirem em sua vida melancólica, carrancudamente determinadas a agir direito se os céus caírem, e a estar do lado do vencedor no dia do juízo.
Que bom seria se pudéssemos aprender que é fácil viver com Deus. Ele se lembra da nossa estrutura e sabe que somos pó. Pode castigar-nos às vezes, é certo, mas até isso Ele faz com um sorriso, o ufano e terno sorriso do Pai que arde de prazer por um filho im­perfeito, mas que promete e que cada dia se parece mais com Aquele de quem é filho.
Alguns de nós ficam nervosos e encabulados porque sabemos que Deus vê cada pensamento nosso e conhece todos os nossos ca­minhos. Não precisamos ficar assim. Deus é a soma total de toda a paciência e a essência da amável boa vontade. Nós O agradamos muito, não tentando freneticamente fazer nós mesmos o bem, mas, sim, lançando-nos em Seus braços com todas as nossas imperfeições, e crendo que Ele compreende tudo e ainda nos ama.